É preciso enegrecer a tecnologia!

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No começo dos anos 80, trabalhei na área de tecnologia, que na época se chamava processamento de dados. Em determinado momento, fui submetido a um teste para uma vaga interna de Programador de Computador, mas continuei na área de operação, haja vista minha ausência quase total de uma competência essencial para a profissão: lógica. De lá para cá, a evolução da tecnologia da informação foi impressionante. O computador que eu operava tinha 48Kbytes de memória, enquanto hoje um cartão de memória pode chegar a alguns terabytes. Mas uma coisa não mudou após mais de 40 anos: a presença majoritária de pessoas brancas no setor.
De acordo com dados do Ministério de Trabalho e Emprego de 2016, a área de engenharia de equipamento em computação é composta por 92% de pessoas brancas. Já os postos de engenharia mecânica automotiva e de engenharia aeronáutica têm 90% e 88,4% das posições ocupadas por pessoas brancas, respectivamente. As causas desse desequilíbrio profundo são várias, mas a maior delas é a existência de um sistema racista que faz com que a população branca desfrute de estereótipos positivos para determinadas atividades, enquanto a negra é ligada a estereótipos negativos que criam bloqueios para acesso e desenvolvimento de carreiras, como em tecnologia. E a baixa diversidade no setor leva à exclusão algorítmica, como aquele famoso caso de uma saboneteira automática que não reconhecia pele escura e, por isso, não liberava o líquido para lavar mãos negras.
Uma outra causa alegada é a falta de pessoas negras qualificadas, o que não é uma verdade absoluta e confirma o desconhecimento da participação histórica de negros na tecnologia, inclusive no que é a internet hoje. A presença realmente é menor, mas talvez as empresas não estejam acessando organizações especializadas, que conectem vagas às pessoas pretas e pardas.
O mercado de trabalho terá mais de 420 mil vagas em tecnologia até 2024. Levando em consideração os dados demográficos do IBGE, em tese, 235 mil dessas vagas poderiam ser ocupadas pela população negra.
O desafio está posto, mas ainda é preciso muita ação para enegrecer a tecnologia.

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Graduado em Administração de Empresas e pós-graduado em Gestão de Pessoas pela FGV, sou Diretor-Líder dos serviços em Diversidade e Inclusão da Deloitte Brasil. Há 25 anos atuo em grandes projetos liderando temas como cultura, liderança, diversidade e inclusão, dentre outros. Sou fundador da “JMS Consultoria em Gente” e voluntário em programas de mentoria para profissionais jovens e maduros.